quarta-feira, 14 de maio de 2014

Cronômetro da vida

 


 

Às vezes tenho um pouco de preguiça de gente rancorosa. Gente que guarda dentro de si o que precisa ser resolvido do lado de fora. Gente que escolhe se esconder, e encolher, do que esticar e perceber que é possível relativizar.
Diante de tanta coisa difícil que tem na vida, penso que rancor é como um passo de caranguejo. É mesmo andar pra trás e escolher azedar o coração. Entornar a poção. Dilacerar a razão. Sem perceber, e agradecer, a oportunidade de melhorar. De perdoar. De oferecer em vez de recolher.
Sou a favor da generosidade. Aquela generosidade feita de braços abertos e sábios. Porque uma mágoa guardada não tem uma morada feliz. Mas uma mágoa trabalhada... ah, essa vira força motriz.
Esse é um convite para mudar o olhar e engrandecer a alma.
O cronòmetro da vida agradece.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Exclamações mágicas

Muitas vezes fui chamada de exagerada. Mas consegui compreender que o exagero para mim era sinônimo de intensidade. Ser intensa afronta. Perturba. Ser intensa, às vezes, fere. Mas, ser intensa eleva minha sensibilidade. Dilata meus poros. Aguça meu paladar. A intensidade nos faz experimentar o dia-a-dia com lentes de aumento, novas tintas, sabores que ultrapassam as medianas aspirações. A intensidade alcança o profundo. E o voo explica o abismo. Por isso doses diárias de intensidade promovem mágicas exclamações. Tá servido?

quinta-feira, 13 de março de 2014

Tempo de ser inteiro.


Na vida a gente tem tempo que está pra fora, tipo girassol acompanhando a luz. E tem tempo que a gente está pra dentro, tipo pérola dentro da ostra. Seja qual for o momento, lembre-se, é tempo de ser inteiro. Tanto na exuberância de dias intensos, quanto na reclusão de momentos íntimos e singulares, precisamos viver por inteiro cada fase. Sim, somos feitos de fases. Fases que se completam, ou se intercalam, ou se sobrepõem, ou se repetem. Mas fases. 
Angustiantes são aqueles momentos de transição. Nem uma fase, nem outra. Sensação de tempo perdido, de falência dos sentimentos, de incompletude. Inércia temida que consome. Mas no fundo uma inércia importante. Que nos inquieta, que nos freia, que nos leva a reflexão. E somente assim, muitas reflexões depois, podemos pular de fase. É, esse passaporte muitas vezes é bem trabalhoso de se conseguir. 
Ser inteiro carrega um custo.
Em nosso próprio benefício.
Então mãos a obra, coração nos olhos, força na peruca. E tudo mais que você preferir.
Isso. Prefira ir.




quarta-feira, 12 de março de 2014

Tanto


Em cada canto do desnudo encanto,
esconde-se um pranto tonto.
Em cada vírgula do entretanto,
encontra-se a resposta do portanto.
Porquanto só me resta o tanto.
O tanto que permanece sob encanto.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

De frente pro espelho.


Quanto de tudo o que criticamos há em nós?
Se pudéssemos roubar da lucidez a maestria de perceber que aquilo que censuramos, corrigimos, desaprovamos, depreciamos é, muitas vezes, nossa imagem refletida em um espelho aterrorizante.
Sim, muitas vezes, nós fazemos o que censuramos, corrigimos, desaprovamos, depreciamos. Veladamente.
E isso nos torna algozes de nós mesmos.
Como seria mais fácil aprender, antes de maldizer.
Olhar o nosso próprio umbigo, antes de desaprovar a postura alheia.
Tentar se redimir antes de condenar.
E se fazer melhor antes de crucificar o pobre ser que está do outro lado servindo apenas de reflexo. 
Como um retrato em preto e branco que tanto teimamos em colorir pra simular nossa santa imagem.
É chegado o tempo de se encarar.
E que o reflexo do outro em nós seja mais que uma fotografia.
Seja reflexão. Retratação.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Um encontro não marcado


Quando ainda era adolescente me aconteceu um fato marcante. Tão marcante que até hoje quando lembro sinto o peito apertar e me emociono. 
Hoje foi assim. Lembrei-me do meu avô. Lembrei-me daquele dia.
Passeava eu com meu avô num fim de tarde. O sol, já querendo se pôr, ainda nos esquentava o corpo. 
E depois descobri que a alma também. 
Meu avô já tinha idade avançada e suas pernas começavam a lhe faltar. Precisava de alguém que o acompanhasse nas breves saídas à rua. Aquele passeio era uma oportunidade de vislumbrar o lado de fora de casa, arejar a "cuca", ver outras cores. A tarde estava linda naquela superquadra superarborizada de Brasília. Já tínhamos conversado e naquele momento apenas contemplávamos o caminho. Foi quando passou um outro senhor por nós. Um senhor como meu avô. Idoso, com dificuldade de andar, mas, infelizmente e provavelmente procurando naqueles raios de sol um calor que não experimentava em família. 
É, ele andava só. Com dificuldade até para falar. Mas falou. Fomos interpelados por ele e paramos. Ele literalmente bateu palmas para o que viu e disse que feliz e completo era meu avô porque tinha alguém que podia lhe dar o braço e o afeto naquele momento. Meu coração sangra só de lembrar. Seus olhinhos miúdos encheram d'água. Os meus também. Sim, ele estava solitário, magoado, triste mesmo. 
Fico pensando o quanto é difícil envelhecer. Ver nosso vigor físico ficando para trás, nossas capacidades se extinguindo, vendo um futuro sem futuro e queimando no peito tantas vontades ainda.
Depois do acontecido, olhei nos olhos do meu avô e lhe disse que feliz era eu por ser depositária da confiança dele em me dar os braços. 
Hoje estava andando num fim de tarde numa superquadra superaborizada de Brasília e me voltou à cabeça o acontecido. Revivi por momentos.
Meu avô e aquele senhor hoje estão muito melhores que nós, creio eu.
E a lição daquele pequeno fragmento da vida deles, num encontro não marcado num fim de tarde, eu levo pra toda a vida.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Ensaio



Há muitos anos tenho o hábito de colocar no papel meus pensamentos. Passados os anos, o papel perdeu seu sentido e tais pensamentos foram parar na telinha do computador. Mas tudo começa igual: uma folha branca, uma tela vazia. E aí começam a pipocar sentimentos e verdades que insistem em se eternizar. Ganham forma, ganham força. E muitas vezes ganham um sentido maior do que realmente tem. Mas é daí que provém a mágica dessa arte. Escrever é viver o sentido íntimo da palavra. É empalar no acúleo máximo dos meus sentidos. É delinear emoções. É colorir o cotidiano. É reinventar o óbvio. É maquiar o feio. É criar o improvável, copiar o provável. É também mostrar a realidade. Nua e tua. É reviver cada momento esquecido, ora vivido e daqui pra diante sacramentado. Na verdade, é um ensaio. Ensaio de devaneios, verdades, bobagens. Apenas ensaio... E ponto.

O UNIVERSO SUSSURRA

Tem silêncios que não são vazios, são profundos demais para caber em palavras. Olho essa imensidão e algo em mim se aquieta, como quem lembr...