O sopro de vida esperado
vem galopando.
Me persegue.
E, por vezes, me toma por inteiro
e me despe.
É o inesperado à galope.
É a emoção daquele toque.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Retalhos antigos 2
SAUDADE
Saudade.
Ausência daquele quê que me envolvia e me fazia tão mulher.
Tudo era tão intenso e por isso mesmo tão perto da morte. Morte do nosso tempo.
E entre um ágape e outro, quanta história, quanta memória farta de sedução.
Os olhos ainda brilham, mas se esqueceram que eram narcisos e não se procuram mais.
Aquela cumplicidade toda, agora se dilui. É como se um ácido ousasse corroer o que havia de mais eterno. É como se aquele vulcão fingisse se tornar um sopro falho de calor. É como se eu engolisse o desaforo do mundo. E engolida não posso sequer falar. Calar é o meu desespero. O que me resta é aquele resto de olhar, que tímido esqueceu-se de toda emoção. Esquecemos um do outro. Esqueci de dizer o quanto amei. Amei-te. Em meio a tanta loucura pensei estar explícito o que para mim era a única verdade. Esqueci, mas esqueceu-se também. Esqueceu-se do abrigo, do afago, do mundo que despejei sobre teus pés e era a ti destinado. Esqueceu-se de tentar vingar aquela semente cujas raízes afundaram.
E nossa amizade, tão sincera, foi a mais esquecida e enterrada. Agora jaz numa rua sem esquina. Sem uma quilha que a faça retornar. Não há chance de sobrevivência. Os pássaros do acaso não ousam mais pousar sobre meus ombros. Um grito abafado ecoa e se perde na madrugada vazia. Vampira noite que me engole, gole a gole, e me embriaga de lucidez.
A noite e eu num ágape de solidão.
A noite provocando prazeres e desenhando com estrelas uma realidade mais colorida, de onde provém fluidos únicos de bem-estar e um estado quase feliz.
Sem você, mas quase feliz.
Sem você, mas pela primeira vez, plena de mim.
(década de 90)
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Ensaio e retalhos
ENSAIO
Há muitos anos tenho o hábito de colocar no papel
meus pensamentos. Passados os anos, o papel perdeu seu sentido e tais
pensamentos foram parar na telinha do computador. Mas tudo começa igual: uma
folha branca, uma tela vazia. E aí começam a pipocar sentimentos e verdades que
insistem em se eternizar. Ganham forma, ganham força. E muitas vezes ganham um
sentido maior do que realmente tem. Mas é daí que provém a mágica dessa arte.
Escrever é viver o sentido íntimo da palavra. É empalar no acúleo máximo dos meus
sentidos. É delinear emoções. É colorir o cotidiano. É reinventar o óbvio. É
maquiar o feio. É criar o improvável, copiar o provável. É também mostrar a
realidade. Nua e tua. É reviver cada momento esquecido, ora vivido e daqui pra
diante sacramentado. Na verdade, é um ensaio. Ensaio de devaneios, verdades,
bobagens.
Apenas ensaio...e ponto.
RETALHOS
Fragmentos. Pedaços. Momentos. Instantes. Talhos.
Uma colcha que vai sendo confeccionada aos
poucos, tecida com preciosas impressões, costurada com valiosas e precisas
linhas. Linhas do tempo. Tempo que soa, ecoa, e me prova que nada é à toa. Uma
riqueza de detalhes que juntos vão desenhando uma história. História de muitas
gentes, relatos apaixonados, falas engasgadas, verdades vomitadas. Luxo e lixo.
Escandalosas verdades. Instigantes reportagens.
Sim, retalhos.
E assim eu sigo, três pontinhos...
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Outono
E quando a retórica começa a ficar gasta, procuro no fundo do ser palavras que possam alcançar a amplitude do outro ser. Que sejam capazes de promover espanto. Que façam sinos tocarem. Corações verdejarem. Sensações aflorarem. Horizontes se modificarem. Porque palavras podem mudar um mundo. Uma vida. Um sonho. Uma despedida. Mesmo aquelas palavras cansadas que, como as folhas de outono, deitam-se no chão para enfeitar a paisagem.
terça-feira, 24 de abril de 2012
Todo dia ao deitar
Todo dia ao deitar refaço o caminho que o dia cursou. Seja ele bom ou ruim. Feliz ou penoso. Só assim, sentindo de novo, posso realmente absorvê-lo de fato. E coisas que me escaparam parecem ganhar luz própria. E tantas palavras ganham novos significados quando no silêncio da alma percebo o que realmente elas queriam dizer. Foi refazendo trajetórias que, tantas vezes, percebi enganos cometidos no meu dia. Palavras que queria ter dito e não saíram. Ações que podiam se tornar reais e ficaram apenas na intenção. Refazer trajetórias me permite ter um novo-próximo-dia cheio de possibilidades conscientes. Por mais que a noite escura ofereça labirintos tortuosos, por mais que sonhos virem pesadelos... quando o dia amanhece é possível imprimir no mapa da vida, com tinta perene, aprendizados significativos. Refazer trajetórias me permite ser dominada pela verdade das minhas palavras.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Tempo consciente
Tempo, pra que te quero ? Quero tempo pra respirar. E poder estar consciente desse movimento. Quero movimento no meu tempo. Pra que ele não pare no tempo. Tempo pra absorver o que não entendo. E entender que só o tempo vai me dar esse tempo. Porque tempo é um espaço. E espaços precisam ser preenchidos para que não virem vãos na alma. Quero tempo para aquecer esses hiatos. Tempo para viver e não apenas existir. Quero abandonar a margem. Quero uma travessia com tempo. Tempo para desvendar labirintos. TEMPO. Com marcha. Com horizonte. Com intensidade.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Latência
Estado de latência. Sementes absorvendo a chuva abundante, que provocou correntezas em rios tão profundos. Raízes se aprofundando lentamente. Buscando alimento para a alma pálida. Continuação da jornada em modo avante. Os acontecimentos à frente. Feito outdoor esfregando a mensagem no nosso nariz. E fazendo escorrer pela garganta o gosto de coisas mal passadas. Na vida é preciso inventar sempre. Re-inventar sementes. Plantar esperanças. E aguardar a brotação. Que seja renovadora. Tingida fortemente. E que traga de volta minha caixa de lápis de cor...
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